Artigos de tango - Paternidade do tango

 

 

 
 
 
 
 

 


Paternidade do tango - Buenos Aires


A paternidade do tango
Alcides Ferrari

Outra perspectiva de um portenho de Buenos.Aires ver o tema da Paternidade do tango

“No conhecimento e na cultura, o esforço e o prazer vão juntos, chegando ao ponto onde estudar, pesquisar e aprender leva o individuo a uma espécie de êxtase, onde não existe o cansaço e só resta o prazer…Como seria bom se na cesta da qualidade de vida houvesse uma boa quantidade de insumos intelectuais” Parece ter sido escrito por alguém de algum lugar do mundo com uma cultura milenar marcada a fogo.

Estando na America NÃO é necessário atravessar oceanos em busca de outros continentes, como Eurasia, Oceania, África e Antártida , porque isso foi dito pelo Presidente da República Oriental do Uruguai , José Mujica Mujica, (Sim, …de nossos irmãos uruguaios), com quem compartilhamos grande parte de nossa história, e mesmo separados pelos rios temos a ponte da irmandade dos povos , podendo estreitar nossas mãos com pais, filhos e netos vivendo em famílias que habitam os dois países. Compartilhamos também tradições, o gosto pela boa mesa, a cultura e a paternidade do tango.
Quanto a essa “criação”, apesar da grande onda de escritos em ensaios e livros de importantes escritores (do lado argentino) como Guilllermo Furlong, Pedro Grenón, Ricardo Rojas, os irmãos Bates, Horacio Ferrer, Ulysses Petit de Murat, José Gobello, etc, que afirmavam que foi parido em um contexto de “malevos”, malfeitores, prostitutas e outros da mesma espécie que frequentavam o submundo e os cortiços.

Em busca de uma data para seu nascimento, mencionam a avaliação de uma propriedade de 1802 (época da colônia) que diz: “Casa e local de tango”. Lugar de danças de negros, tambem chamados de “Tambos”, que ainda se vê em uma ata de 1806 que diz: “Ficam proibidos na cidade os bailes conhecidos pelo nome de “tangos”...

Foi batizado como um híbrido gerado pela Habanera, com sua linha melodica-sentimental e sua força emotiva, a Milonga com a sua coreografia e o Candombe com seu ritmo. Outros acrescentaram o Tango Andaluz, mas com o tempo, o Tango crioulo se tornou independente dos seus progenitores, dominando qualquer semelhança. Nos primeiros fascículos semanais intitulados “Tango”, editados nos anos 80 pela Editora Perfil, sob a direção de Alberto Fontevecchia isso está minuciosamente detalhado.

Quanto aos irmãos uruguaios como César di Candia (jornalista e escritor), Emilio Sisa López, Daniel Vidart, Idea Vilariño e vários outros que escreveram sobre este tema, com a proteção de que “Não tem nada que ver o sentido de "propietarismo patriótico”, afirmam que em um ambiente de condições iguais às de Buenos Aires, o Tango "nasceu como um baile popular, nas velhas academias montevideanas de fins do século XIX. Por conseguinte, seus criadores e coreógrafos foram os negros filhos de escravos , os cafetões, as prostitutas baratas, as vadias e as resacas das margens da cidade". E ficam fortalecidos mencionando a Jorge L. Borges que no livro “O idioma dos argentinos”(1928) afirmou “...O tango é filho da milonga montevideana e neto da habanera. Nasceu na Academia San Felipe, galpão montevideano de bailes públicos, entre compadritos e negros, emigrou ao Bajo de Buenos Aires ...Isto é, o tango é afro-montevideano...” E acrescentam que em 1808, vizinhos de Montevideu apresentaram uma queixa desaprovando: “os bailes de tango que faziam os negros”.

Conhecendo nossa historia, lembremos que a Banda Oriental constituiu sua primeira unidade administrativa recentemente em 1913 (José Artigas), a Independência foi em 25-8-1825 e a primeira Constituição Nacional, dando ao Estado o nome de Uruguai, foi assinada em 18-7-1830. De tal forma que em inícios de 1800 ambas as “margens” pertenciam ao Vice-Reino do Rio da Prata sob o domínio Espanhol.
Devido às carências da época SÓ ficaram poucos escritos daqueles que foram os protagonistas dos primórdios do tango. Cada um de nós pode tecer esta história com um fio diferente, e chegar ao único ponto tangível que é: temos muitos “pais” que o adotaram zelosamente, o fizeram ele perdurar e hoje o mundo continua desfrutando da poesia de suas letras, a melodia de sua música e de poder dançar como um “milongueiro” que ao fazê-lo: encrespa seu coração e faz um novelo...junto com sua parceira.

Carlos Gardel ( nascido em 11-12-1890 em Toulouse-França ), quando em um banquete lhe perguntaram sobre sua nacionalidade, levantou-se da cadeira e disse “senhores, eu sou rioplatense, como o tango”.

Poetas, músicos, cantores e tangos uruguaios e/ou argentinos?

O jornalista uruguaio César Di Candia escreveu ( abreviado por causa do espaço):
no trabalho do parto do tango participaram os uruguaios Manuel Aróstegui, autor de El Cachafaz e O Apache argentino; Enrique Saborido, criador musical de Felicia e La Morocha, Matos Rodriguez quem quase brincando compôs La Cumparsita, o sanducero Alfredo Gobbi, o maragato Francisco Canaro, a oriental Rosita Melo, autora de Desde el alma,os montevideanos Pintín Castellanos e Fernán Silva Valdés, criador da (letra) Clavel del Aire,o cantor Goes Carlos Roldán, o pedrense Julio Sosa, e o tacuaremboense Carlos Gardel Tudo isso como crédito a favor de Montevidéu pela paternidade.

Respeitando o escrito pelo prestigioso jornalista, vou fazer um comentário, em parte mencionando as pessoas nascidas no Uruguai, importantes fazedores quanto á elaboração e difusão do tango. Primeiro, asseverar que os atributos de uma pessoa para fazer tal ou qual coisa tenham como base o seu lugar de nascimento NÃO é o método adequado para a criação de obras da cultura popular como o tango, tendo mais valor os lugares onde ocorrem os “fatos” que desencadearam as circunstancias da criatividade de “fazer um tango”. E como exemplo vou citar a um dos grandes:

Homero Manzi (pai argentino e mãe uruguaia) nasceu em 1907 em Añatuya (Santiago del Estero), aos 7 anos se radicou em Bs.As e viveu no bairro portenho de Pompeya, lugar que pelas suas características, sua gente e seu potencial poético o levou a escrever dois tangos famosos como são “Sur”e “Bairro de Tango”. Registra ao todo 105 temas, da importância de “Malena”,”Manoblanca”,”Ninguna”,”Discepolina”, “Viejo Ciego”etc…
Pergunto:
Que teria feito Manzi se tivesse ficado toda sua vida na sua cidade natal? ...Partindo dessa premissa, o já citado Enrique Saborido aos 4 anos chega á Bs.As. adotando a cidadania argentina e trabalhando na Confiteria Ronchetti, compôs “La Morocha”(A. Villoldo escreve a letra) e fez “Felicia”numa Casa de Baila portenha, usando o nome da esposa de Carlos Pacheco que escreveu a letra. Da mesma forma foi Manuel Aróstegui, autor de ‘El Apache Argentino” e do “El Cachafaz”.

Matos Rodríguez escreveu uma marcha para sua comparsa estudantil de carnaval e Roberto Firpo com partes de seu tema “La gaucha Manuela”e outros arranjos fez um tango. Matos ficou com os elogios de autor e a vendeu por 4 moedas à Casa Breyer, que a arquivou, caindo ”La Cumparsita” no esquecimento. P. Contursi a revive quando escreve “Si Supieras”, que deu origem a um demorado juízo pela autoria ( ver detalhes em Art. Tango Arg. No26-B, Autoria da Cumparsita). O “Becho”é 100% autor único? Ou: uma parte da música corresponderia aos argentinos?

Alfredo Eusebio Gobbi nasceu em Paysandú em 5 de fevereiro de1877. Aos 18 anos radicou-se em BsAs, e começa a sua vida artística. Em 1907, junto com sua esposa e Villoldo, vai a Paris. Falece em Buenos Aires em 25-1-1938.

Francisco Canaro, nascido em San José de Mayo em 26-11-1888, chegou ao país aos 9 anos. tornou-se músico, gravou quase 7.000 discos, fundou SADAIC em Bs.As e faleceu nessa cidade em 14 de dezembro de 1964.

Rosita Melo, nascida em Montevidéu em 9 de julho de1903(?), aos 3 anos já vivia em Bs.As. e aí faleceu em 1981.

Carlos Roldán, uruguaio, cantor de orquestras em várias rádios de Bs.As, gravou com Canaro, Fresedo, Rotundo e os irmãos Caló. Fez dois filmes na Argentina e morre em Bs.As em 16 de junho de 1973.

Julio Sosa , nasceu em Las Piedras em 2-5-1926, em 1949 pisou em Bs.As. Trabalhou em cafés, depois com Franchini-Pontier, Rotundo, A. Pontier. Teve sua própria orquestra, gravou seus sucessos e morreu em Bs.As em 26-11-1964.

Carlos Gardel , pela enésima vez digo que nasceu em 11-12-1890 no Hospital Saint-Joseph de la Grave, Toulouse-França. ( VER detalhes no livro “Tango, vigência e crepusculo” de Juan Carlos Esteban.)
Em todos estes casos trata-se do lugar, do ambiente e dos fatos acontecidos, mais do que do lugar de nascimento dos personagens. O Sr. Daniel Vidart (uruguaio) disse: “o tango é um valor cultural com raízes idênticas tanto em Montevidéu, como em Buenos Aires. Ambas margens do Rio La Plata emprestaram seus músicos, suas letras, seus dançarinos e multidões devotas...”são palavras para superar o patriotismo e antagonismo de dois países irmãos.

Esperando que esse escrito seja recebido unicamente como uma contribuição para que, pelo menos no tango, continuemos sendo irmãos como sempre fomos, compartilhando a nossa historia.

Com um abraço milonguero para todos os senhores, incluindo meus amigos e habitantes uruguaios além da "Margem" em que vivam.

Com os cumprimentos de Alcides Ferrari

Blog em Google: www.milongueroybailarin.wordpress.com
Artigos do tango argentino, seus músicos, cantores, poetas, letras de tangos próprios, fotos, etc.

Créditos:
Tradução para o português:
Milena Suric
E-mail: [email protected]